29 de janeiro de 2021

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Uma razão antiga despertou-me, num dado momento, para o contínuo o interesse em relevar o valor de uma empresária madeirense que o destino interrompeu muito cedo a sua jornada na Terra. 
Tinha apenas 42 anos. Estávamos em 1974, o ano da liberdade e da democracia em Portugal. 
O cancro levou à vante, tonando inglória a luta que a levou por essa Europa fora à procura da cura para a vida que fugia entre os dedos. Foi uma luta que se tornou desigual naqueles anos 70. 
A vontade de viver, os sonhos, e a determinação iam-se desvanecendo a cada dia naquele quarto amplo com vista para o mar. O desgosto de deixar os filhos ainda adensava mais a tristeza da empresária que ousou inovar e conseguiu afirmar-se numa sociedade fechada na ilha da Madeira.

E foi porque carrego nos anos passados o desejo de mostrar a empreendedora que conheci muito depressa nos meus primeiros anos de vida que quis ir à procura de quem a conheceu melhor que eu, mesmo vivendo diariamente com ela, sabendo de antemão os muitos anos que já passaram.

Uma das pessoas que pedi ajuda foi a Clarinha, a simpática Clara Spínola que conheci muito cedo quando ia à sua casa, ali entre o Campo da Barca e a Pena. Ainda me lembro da casa que já não existe, rodeada de bananeiras e muito verde. Recordo com saudade também a sua mãe.

A Clarinha era uma figura graciosa, simpática, sempre com um sorriso no rosto. Foi a mulher de um brilhante piloto de ralis: o Janica Clemente.

Um dia qualquer de 2020 contactei-a. Perguntei se ainda se lembrava da Irene, sua amiga. Dos sonhos que tinha quando era jovem e estudava piano. 

Como esperava, disse-me que se recordava da mulher do Alexandre muito bem e que, quando eu quisesse, tinha a porta aberta da sua casa nas Carreiras para lá ir e falarmos da empreendedora que abriu o Balão Vermelho na Rua do Aljube, no Funchal. Uma loja de comércio dedicada às crianças e às senhoras.

Estávamos mergulhados em tempos de pandemia, numa altura em que tínhamos muito receio pelo desconhecimento. Hoje vemos que nesse tempo o vírus era residual. Vendo os casos de agora apercebo-me que o receio que então tinha de levar algum vírus até à casa da Clarinha, deveria ter sido relativizado, porque não existiam razões para isso.

De qualquer forma, os dias foram passando. Os dias deram lugar às semanas, e as semanas aos meses. A ideia não me saia da cabeça, mas o receio do coronavírus e a vida diária não permitia grandes aberturas.

Chegamos a dezembro, uma altura que nos traz alegria pelo Natal que se aproxima. Mas aquele último mês de 2020 deu-me um soco na barriga quando soube que a Clarinha tinha ido ter com a Irene e com o seu Janica, que não tinha partido há muito.

A conversa ficou adiada. Por cá jamais a vou conseguir.

Fui ler a última mensagem que a Clarinha me enviou quando disse que poderia falar com ela em qualquer dia. Referia que seria bom que a avisasse antes pois disse que, por vezes, tinha de ir ao hospital, mas nunca ao sábado. Portanto, este dia seria bom. Não valorizei a parte das idas ao hospital. Admiti que fosse uma rotina qualquer como fisioterapia. Só mais tarde me apercebi que também esteve doente antes de nos deixar.

Nessa mensagem recordou os meus pais, o meu irmão mais velho e os enjoos da minha mãe quando estava grávida dele, e ainda os jogos de dominó e de cartas que preenchiam o tempo na casa dos meus avós maternos.

A Clarinha terminou essas mensagens dizendo: "Grandes memórias...". Pois eram, e eu queria tanto consegui-las. 

Confesso que fiquei muito triste com a partida da Clarinha. Não por ficar sem saber as memórias, mas sim pela Clarinha que desde criança sempre admirei e retenho o seu sorriso. 

18 de novembro de 2020

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Acordei hoje ainda o sol não tinha vencido a lua na sua troca de lugares diária no horizonte que orienta as nossas vidas. O que antes era um hábito ir à janela para apreciar os navios de cruzeiro que estavam já no porto do Funchal hoje foi especial. E sobressaiu por duas razões: a primeira, pela surpresa. Apesar de saber que vinha, o normal dos últimos meses que me levam sempre à janela, virou exceção. Nem queria acreditar que estava a ver aquela Pontinha iluminada pelas luzes coloridas do 'Disney Wonder'. Parecia uma criança numa loja de doces.

E a segunda razão é que me permitiu voltar a fotografar navios. 

Fiz os primeiros registos com o telemóvel, pela facilidade de congelar momentos. Mas, a verdade é que, se durante certas ocasiões até pode fazer a vez de uma máquina, na realidade, ainda por cima numa noite cerrada como estava, por mais que ajustasse no Pro, o grão não me ia deixar ver uma fotografia imaculada.

Por isso mesmo fui buscar uma das câmaras, sempre Canon, peguei numa peça de roupa que esteve a enxugar mas que já estava seca, programei a máquina e fui disparando, ajustando sempre para conseguir o melhor. O meu melhor, entenda-se, porque não tenho equipamentos F1. Permitem-me registar os meus momentos mas sei que há um longo caminho que separa estes equipamentos de outros, que precisam sempre de mestria para os manejar.

Conforme o dia ia clareando, com o sol a iluminar o dia não sem que antes se espreguiçasse sobre as desertas alaranjado, fui fotografando, sem exageros, entenda-se, enquanto preparava tudo para levar o meu filho Rodrigo à escola. E depois até eu próprio descer para a Secretaria Regional de Turismo e Cultura.

Depois perdi o rasto do navio da Disney que conseguia ir controlando a escala vislumbrando entre as árvores as suas icónicas chaminés vermelhas com o logo amarelo do Mickey estampado. Nem tive tempo de ir vê-lo de mais de perto, da ponta do cais, pois estava atracado mesmo em frente. 

Os dias de trabalho são muito preenchidos pelo que só voltei a vê-lo quando regressei a casa já noite. Ou melhor, viu-o quando passei de carro, à tarde, com uma boa luz, quando regressava ao Funchal depois de ter estado na Calheta e na Ribeira Brava.

Quando cheguei a casa voltei a olhar para o navio da minha varanda num tempo que ainda não que obriga a usar agasalhos. Estava de manga curta. 

Não fiquei muito tempo e fui fazer diversos afazeres. Despertei quando apitou ainda não eram 20 horas. Queria ouvir aquela melodia da Disneu que diferencia as partidas. Contudo, a sequência que surgiu depois dos apitos foi curta. 

O navio, que entrara de proa, começou a manobrar e a dar a ré. Parou a marcha, rodou a proa para bombordo e seguiu.

Acompanhei a saída para saciar a saudade de ver os navios partirem, sabendo que haverá outra vez um vazio. E também o fiz na esperança de ouvir a melodia que esperava voltasse a acontecer mas de forma mais prolongada. Voltou a pincelar o silêncio com uns pequenos acordos, mas nada do que esperava. Fiquei triste, confesso.

Vi o navio partir, iluminado, mas sem a vida, e sem o barulho que costumava ouvir nas saídas dos paquetes em direção à próxima escala. Tinha o enorme écran ligado no convés superior, mas as outras luzes eram estáticas, sem movimento, a indiciar que não haviam passageiros a bordo. 

Fui vendo sair, sempre alimentando a tal esperança de que o comandante desse um ar da sua graça, mas o Disney Wonder acabou por perder-se na escuridão, no seu rumo para o outro lado Atlântico.

9 de outubro de 2018

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📷  Paulo Camacho  📷

Não estava combinado ir ao futebol, neste sábado, dia 7 de outubro. Mas ofereceram-me uma entrada. Além disso, ia fazer companhia ao filho de um grande amigo meu que não podia ir ver o seu, o nosso Marítimo, por afazeres profissionais.
Lá fui, embora só o tivesse feito pela razão que expliquei do que ver o jogo.
No sábado anterior tinha tido a possibilidade de ver os meus dois clubes leões de eleição em Lisboa, e a ideia do fio de jogo da equipa madeirense não me convenceu. Trocava a bola, mas não passava disso. Não que o Sporting estivesse a fazer melhor do outro lado. Ganhou, é verdade. Mas também não augurava nada de bom. Infelizmente, isso veio a comprovar-se este domingo ao ser goleado de forma humilhante em casa do Portimonense por 4-2. Mas isso, são outras contas.

Cheguei cedo ao Estádio do Marítimo, o novo estádio que surgiu no espaço do mítico "caldeirão dos Barreiros" onde todas as equipas temiam entrar em campo para defrontar a mais gloriosa equipa insular.
As equipas ainda nem tinham entrado para aquecer.

Sentei-me confortavelmente no lado onde antes era o peão, mas que proporcionava a quem estava no lado oposto uma vista fantástica para a baía do Funchal. Hoje isso não se vê.
Dei-me ao luxo de escolher o lugar que queria.

Entram as equipas para o aquecimento.
Do lado do Clube Sport Marítimo surgem primeiro os guarda-redes.
Mais tarde vem a equipa toda que entra em campo com uma grande salva de palmas.
Todos recolhem às cabines.

A equipa do Marítimo é anunciada um a um. Cada jogador é ovacionado. O público está com eles.

As três equipas entram no relvado para a partida. Pela voz do estádio apenas ali vinha o Marítimo. Olhei bem, e comprovei que vinha a nossa equipa, a do Guimarães e a de arbitragem. Enfim.

Não demorou muito tempo até o jogo começar. Eram 18 horas.
Bola cá e bola lá e dá para ver que a equipa do norte está na Madeira sem qualquer receio. As ameaças avolumam-se.
O Marítimo vai trocando a bola quando pode. E remata aqui e ali. Sem perigo.
Andamos nisto até que o Guimarães marca na Madeira. Uma equipa que por tradição perde em casa com o Marítimo. Nem queria acreditar.

Ouvem-se algumas vozes a criticar as falhas de alguns jogadores da casa. Outros dão dicas como deveriam jogar. O que é normal no Marítimo. Tão depressa começa com pancadinhas nas costas como rapidamente está a assobiar o mesmo jogador. Isto para dizer outros nomes que não têm problema em chamar, independentemente de quem esteja no perímetro.

Estava a ver que a coisa não ia correr bem. Vai daí, com muita pena minha, deixei o filho do meu amigo só no estádio, não que seja nenhuma criança, e já um jovem perto de fazer 20 anos. Disse que não estava mais para ver aquela vergonha e, pela primeira vez, saí do estádio antes do intervalo.

A segunda parte veio dar-me razão. Quando soube do resultado nem quis acreditar. O Marítimo que o locutor tinha pintado antes da partida pelos seus feitos, entre os quais se conta ter sido campeão de Portugal em 1926, chegou a estar a perder, em casa, atente-se bem, por 0-3. Conseguiu reduzir para 1-3, com um bonito remate, reconheço, mas isso não foi suficiente para evitar a grande humilhação.

Por isso, vi com normalidade os lenços brancos e os assobios que surgiram no fim do jogo.
Embora costume ser frontalmente contra as chicotadas psicológicas, estou em crer que este treinador não está a conseguir passar a sua mensagem para a equipa, que até tem bons valores, a começar pelo guarda-redes iraniano Amir Abedzadeh.

Aliás, devo dizer que já tinha ficado muito desapontado com a equipa na apresentação do plantel, a que se refere a fotografia que acompanha este texto.

Paulo Camacho

30 de julho de 2018

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Olho na direção da ponta mais a norte do Palácio de São Lourenço. Tento perceber como seria a guarita quase suspensa, que nunca conheci, ou não me recordo de a ver. Ficava à frente daquelas linhas cilíndricas, encimadas por aquela forma de funil ao contrário.
As nuvens desviam o olhar. Despertam-me neste dia fresquinho na cidade do Funchal. As abertas criadas pela brisa do ar, que deixam trespassar o sol, moldam formas nas nuvens. Uma assemelha-se a um cavalo e até parece que o ouço relinchar...
… o som torna-se mais insistente. Ao meu lado estão três cavalos verdadeiros, emparelhados. Um responde descontente ao puxar dos arreios de forma brusca pelo homem sentado na carruagem montada sobre carris na Praça da Constituição.
À minha volta estão muitas crianças e adultos, alguns com chapéu, a ver o “americano” que se prepara para partir cheio de turistas dos navios fundeados na baía. Faz ligações diárias até à Estação do Pombal onde vou apanhar o comboio que me levará nesta manhã de abril de 1910 até ao Monte. Lá fica a casa de familiares onde passarei uns dias.
Subo e sento-me.
O carro americano, de “três cavalos”, passa pelas ruas do Aljube e do Bettencourt, e sobe. Vagarosamente galga a Rua da Princesa, com a ribeira de Santa Luzia à esquerda. Passa um leiteiro que cumprimenta com o chapéu. Vem carregado de latas e de medidas. Cruzo ainda com dois carregadores arqueados pelo peso, com um pau dividido pelo ombro direito. De um lado e de outro têm penduradas cestas de vimes com o almoço para pessoas que vivem na periferia mas que trabalham no centro.
Chego à Estação do Pombal. Compro o bilhete para o Monte e sento-me num dos lugares da frente da carruagem do comboio que está quase cheia. Uma parte são turistas que viajaram comigo no “americano”.
Solta o silvo. Cá vou eu, muito devagar, nesta parte pouco íngreme da ligação ao Monte.
O casario é pouco. Neste início, tem umas três casas à direita perto da linha.
Depois, há mais plantas e árvores do que casas, que só aqui e ali pincelam os lados afastados da acentuada subida. O comboio faz a primeira curva e vejo lá em cima os hotéis.
Chegamos à estação da Levada de Santa Luzia, a primeira da linha a ser inaugurada, a 16 de julho de 1893. Saem dois passageiros e entra um.
A carruagem de passageiros retoma a marcha empurrada pela locomotiva a vapor que ganha mais tração com o sistema de cremalheira que interliga ao centro das linhas onde assentam as rodas.
Até chegar ao destino final, no Monte (a segunda etapa das obras e expansão da linha, inaugurada a 5 de agosto de 1894), o comboio pára ainda nas estações do Livramento, da Quinta Sant’Ana, Flamengo, Confeitaria, Atalhinho (Monte) e Largo da Fonte, onde muitas pessoas esperam os passageiros que chegam.
Um pouco antes de terminar a viagem, vejo descer um carro de cestos no caminho empedrado, ao lado da linha. Nele vai um senhor de fato e chapéu de palha, igual aos que os dois carreireiros usam, mas que estão vestidos de branco e com um colete preto.
No Monte, os meus familiares esperam-me e sigo com eles para a quinta. Deixo para trás o comboio que regressará ao Funchal com a mesma configuração, mas com a máquina a travar a descida.
Pelo caminho olho a cidade distante embelezada com navios na baía.
O céu continua coberto. As nuvens parecem estar mais perto. As formas moldadas pelo vento despertam-me.
O cavalo branco desfez-se. Daí a pouco forma-se o que parece ser uma bicicleta…
… trim, trim, trim, trim… desvio-me a tempo de um jovem ciclista que circula desenfreado no passeio central da Avenida Arriaga onde andam madeirenses e muitos turistas.
Não vejo sinais do “americano”, nem das pessoas vestidas com roupas domingueiras. Andei a divagar. Não houve subida ao Monte no comboio que chegou ao Terreiro da Luta em julho de 1912. Tinha então uma linha com 3.911 metros de comprimento e ia de uns 150 metros de altitude aos 850 metros.
A 10 de setembro de 1919 deu-se uma explosão na caldeira da locomotiva, ao subir para Monte, provocando 4 mortos e vários feridos, entre os 56 passageiros. A 11 de janeiro de 1932, o comboio descarrilou.
Em abril de 1943 fez a última viagem e a linha foi desmantelada pouco tempo depois.
Hoje ainda resta a Estação do Pombal e o nome no caminho que rasga a montanha para lembrar que durante meio século ali circulou o Comboio do Monte... u-uuu, u-uuu...

Paulo Camacho

paulosilvacamacho@gmail.com

In JM 30.07.2018

23 de julho de 2018

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📷  Paulo Camacho  📷
O silêncio impressiona. Estou a centenas de metros do barulho dos carros, mas não ouço nada do movimento na Avenida do Mar e das Comunidades Madeirenses, no Funchal. O som está ausente por aqui, na área de estacionamento da Pontinha.

Vejo a cidade que beija o mar e a serra, delimitada a leste pelo Pico da Cruz e, a oeste, pelos montes do Palheiro Golfe. A parede, à direita, tapa o resto.
Agora ouço o barulho do ar que sai e entra nos respiradores do porto, devido ao movimento do mar. Conheço-o desde criança.
Há um martelar distante à minha esquerda. Olho mas a origem esconde-se. Também não importa. Pára, e volta mais baixo.
O silêncio acaba por imperar neste lugar com vista privilegiada.

Vozes pincelam a quase ausência de sons. São de ingleses: um adulto e um adolescente, talvez pai e filho. Treinam em bicicletas de corridas. Normalmente vejo-as por aqui, mas com locais.
Estão equipados a rigor, como os profissionais do ‘tour’. Partem. Daí a pouco voltam e ficam com as bicicletas paradas junto à vedação. Um pé no pedal e outro no chão. Conversam baixo, já não ouço qualquer palavra. Contemplam a cidade.
Seguem o treino.
Atrás de mim, em cima da parede de proteção do porto, alguém diz alto um nome esquisito. Parece que chama um dos falcões que afugentam as gaivotas para não conspurcarem o porto.
O silêncio volta.
Não há navios de cruzeiros.

Uma carrinha de turismo preta chega e estaciona três lugares à minha direita. Tem os vidros fumados. O condutor muda de roupa. Fecha o carro e começa a correr.
Desprendo-me do que está à minha volta e olho em frente. Estacionei no alinhamento da torre da Sé, do outro lado do mar. À sua direita, mais junto à Praça do Povo, vejo o novo mastro com a bandeira da Região Autónoma da Madeira. É a área marítima da marina e do cais 8.
De leste surge de rompante um barco de pesca desportiva, de casco azul. Vem com turistas. Tão depressa chegou como desapareceu.
Um senhor de cabelo branco vem a pé, da esquerda, junto à rede de segurança. Talvez para não se perder. Anda sem pressa. Sempre à mesma distância da vedação segue até a parede, abaixo do farol. Roda apertado para continuar junto à armação metálica e volta para trás.
Os ingleses ciclistas passam por mim outra vez. Não param.

No mar só há movimento da ondulação larga, até que parece estar a ver um náufrago, quase a chegar a terra, em cima de uma madeira que sobrou. Um remo permite que avance. Na verdade, está a fazer Puddle. Mas a maneira como surgiu, muito magro e de calções escuros, despertou-me essa imagem.
Volta o sossego em terra e no mar.
Dei por mim a recuar no tempo. A imaginar os navios que fundeavam neste mar. Aquele movimento dos passageiros que iam a terra em lanchas, e de outras em redor dos navios com bomboteiros a tentarem vender coisas aos viajantes como bordados e vimes. Uma imagem idílica que fui buscar às fotografias que, felizmente, alguém registou.
Como seria bom conseguir andar para trás e vivenciar um momento desses. Sei lá, talvez recuar até aos anos 30. Poder estar a ver um mar cheio de navios que atravessavam o Atlântico e que faziam uma escala na cidade. E vê-los com o Funchal por trás…
Seria lindo, pois seria, mas não poderia estar aqui com o carro, não porque fosse proibido mas porque era mar nessa altura. Só se estivesse a bordo de uma canoa.
Um carro chega e estaciona junto à vedação. Não é lugar para o fazer. Lá dentro está uma senhora e uma criança. Ouvem alto a música La Bicicleta, de Shakira e Carlos Vives. Não ficam muito tempo.
Momentos depois, um arranque anormal de um carro desperta-me à direita. Surpreende pelo barulho, mas anda pouco. Ao volante, está um jovem com meia dúzia de pelos a fazer de barba. Olha para o lado do passageiro com cara de quem se sente um campeão de ralis.
Regressa o silêncio. Algumas pessoas vêm e voltam numa passada ritmada, mas não se fazem ouvir.
Da direita chega um barco pneumático cheio de turistas. Foram avistar cetáceos. Daí a pouco vem um barco com arquitetura tradicional da ilha, mas a um ritmo mais lento. Também transporta turistas que viram igualmente cetáceos mas, sobretudo, o litoral da ilha da Madeira.
Chega o condutor da carrinha que foi correr. Daí a pouco segue viagem.
No mar, aproxima-se tranquilamente a nau. Também traz turistas que se deliciam com a viagem no século XXI numa réplica do século XV.
Aproveito para sair e deixar o silêncio atracado no porto.

Paulo Camacho

paulosilvacamacho@gmail.com

In JM 23.07.2018

16 de julho de 2018

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Estou atento para encontrar a Rua da Quinta Falcão, à esquerda de quem sobe a Rua Campo do Marítimo. Entro e conduzo devagar. A manhã ainda se espreguiça. Não vejo ninguém. À frente, volto à esquerda e subo. Depressa estou no alto. Conheço o quadro.
Há dias estive por aqui à procura da casa de infância de Ronaldo. Mas, nessa altura, saí com mais dúvidas do que entrei.
Agora tenho de encontrar a casa. Não vejo vestígios. Tudo é muito semelhante.
Dou a volta às árvores entre duas ruas e volto para trás. A retomar a rua principal cruzo-me com um casal que acaba de subir, a pé. Pergunto onde fica a casa de Ronaldo. A resposta surge com espanto. É mesmo ali, indica-me, no princípio da descida, à direita, num largo, junto à grande casa azul. Agradeço.
Vou até lá. Estaciono o carro voltado para a saída. Olho em volta, para o espaço pequeno. Não há sinal de ter vivido por ali. Não há bustos, placas, nada que diga ser mesmo aquele o lugar. Apenas uma casa habitada atrás de mim. Mas sei que não vive ninguém na casa que procuro.
A fotografia de Georgina Rodriguéz que vi há poucos meses com Cristiano Ronaldo neste cenário surge na memória. Os dois, aquela rede metálica, e a casa azul atrás. Estou no lugar certo. Mas continuo sem ver a casa.
Admito que nem ruínas existam. Há qualquer coisa nos meus arquivos acerca dessa fase da vida que nunca dei importância. Aliás, não só não sei onde é a casa como não sabia onde era a Quinta Falcão.
Vejo uma parede alta, à esquerda. Tem uma porta e uma janela tapadas com blocos. A construção cinzenta protege um monte de terra. Será o que resta da casa do Ronaldo?
Chega um carro. Um senhor que o conduz olha para mim. Admito que estou a ocupar o seu lugar. Tiro essa dúvida. Fico sem saber.
Aproveito para encontrar as respostas que procuro.
A parede de blocos não tem nada a ver, era uma carpintaria, ou algo por aí.
Mas não deixou de desfazer as minhas dúvidas. Aponta no sentido oposto e, com o dedo, traça no ar as linhas da casa que já não existe. Explica como era a habitação e as suas divisões.
Ups... apercebo-me que tenho o carro num dos quartos. Ah... pois, não há problema porque tudo foi derrubado e coberto com o asfalto no largo onde cabem 5 ou 6 carros. Restam uns degraus da casa, dois ou três, que subo do desnível… até o asfalto.  
O senhor com que conversei é discreto. Vive ali há muitos anos. Tantos que lhe permitem lembrar que aquele terreno não era nada antes da família Aveiro ali residir. Viu a casa ser construída, habitada, e depois, presenciou o desaparecimento.
Guarda recordações de todos, incluindo daquele que cedo percebeu que tinha um jeito especial para tratar a bola, que o acompanhava sempre.
Lembra-se de um dia que saiu de casa e Cristiano Ronaldo, com uns 5 ou 6 anos, brincava na rua a dar toques na bola. Sempre a ouvi-la saltitar cada vez mais longe, ao chegar ao fim da rua, olhou para trás e viu que continuava a não deixar a bola cair no chão.
Pergunto se passam por aqui muitas pessoas à procura da casa de Ronaldo. Praticamente todos os dias, responde. Muitos estrangeiros. Não sei como chegam e depois como sabem que é aqui porque nada identifica. Muito menos há qualquer ligação com o famoso morador que viveu aqui os primeiros anos da sua vida, até ir para Lisboa, jogar no Sporting. Enquanto residiu na Quinta Falcão começou a jogar no Andorinha, onde o pai colaborava. Depois esteve no Nacional.
Chega um familiar do senhor com quem converso. Diz que vai aproveitar e leva as compras que deixou no carro.
Sozinho, afasto-me e foco-me no que aquele dedo tinha indicado...
Oiço uma bola a saltitar de alguém que faz o 31. Olho em volta. Não vejo vivalma. Continuo a ouvir o tac-tac-tac-tac…
Ligo a ignição do carro. Subo a rampa, volto à direita e desço a Rua da Quinta Falcão.
Deixo em sossego o largo sem nome nem inscrições, nem nada físico que recorde o melhor do mundo. Talvez seja dispensável.

Pela rua abaixo, até chegar à do Campo do Marítimo, continuo a ouvir, à minha direita, a bola a saltar ritmada, sem interrupções, num som que se afasta de um tac-tac-tac-tac …

Paulo Camacho

paulosilvacamacho@gmail.com


in JM 16.07.2018

9 de julho de 2018

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📷  Paulo Camacho  📷
O dia está quente. Muito quente, sobretudo quando o sol vence as nuvens. É quarta-feira, dia 4 de junho de 2018. Sentado na Praça do Mar, ou Praça CR7, como agora está escrito na placa aqui perto, na parede do hotel Pestana CR7 Funchal, delicio-me com um café. Olho a cidade com as nuvens que brincam às escondidas com o astro rei. Não, não é com o Cristiano Ronaldo mas com o sol que ilumina o dia, embora, infelizmente, este verão tarde em vencer as nuvens, que estão a dar uma goleada.
Espero o ferry Volcan de Tijarafe. O horário da empresa indica que aporta às 12h30, 24 horas depois de partir de Portimão. Será a primeira vez nesta temporada de verão com partida do Algarve.
Para surpresa minha, aí pelas 11 horas, sem grandes precisões de minutos, o navio surge apontado para o Porto do Funchal. Uma antecipação acentuada.
Consulto o MarineTraffic. Até saiu mais tarde, às 12h43 do dia anterior. O que quer dizer que veio a acelerar ou então o mar estava inclinado ...

Aproveito para passar os olhos pela leitura que tinha ficado em stand by antes de olhar o céu e levanto-me. Vou calmamente até ao porto, que fica ali mesmo. Olho para a “cabeça” da Pontinha e o navio da Naviera Armas, que está afretado à Empresa de Navegação Madeirense neste verão, faz a manobra para entrar de ré, ou, simplificando em linguagem de estrada, para vir de marcha-atrás.
Não entra com a velocidade rápida que já o vi fazer tantas vezes quando o operador espanhol realizou esta operação sozinho entre junho de 2008 e janeiro de 2012. Nem surge já a descer as rampas de embarque e de desembarque de veículo desde o início da manobra de inversão.
Tem de ficar bem atracado para as descer, uma de cada vez, o que acontece pelas 11h30.

A chegada antecipada do ferry não terá dado tempo a quem pensava assistir. Mesmo assim, estão algumas pessoas. O movimento de carros é acentuado. Alguns dos apreciam tiram fotografias. Outros, ou têm dificuldade para encontrarem o botão ou estão a filmar.
No outro lado da barreira de metal, o movimento é acentuado. Muita gente ligada a diversas entidades, cada uma a desempenhar um papel. Até há cães. Depois de alguma demora, é colocada a escada de portaló no devido lugar. Começam a sair os primeiros passageiros. Vejo largas dezenas.

O sol aquece e o cabelo parece que derrete com o calor intenso. As nuvens sofrem um grande golo.
Os veículos demoram mais a sair, apesar das rampas estarem disponíveis há muito tempo. O primeiro carro a usar uma das quatro rampas verdes do navio branco é um modelo antigo com grande elegância. Sai devagar, não sei se com medo de se partir ou de bater com o fundo no encontro de rampas.
Algum tempo depois surge um autocarro. As cores não me deixam antever o destino. Daí a pouco, até parece que alguém destapa o ralo de uma pia cheia de água. Começam a sair veículos numa sequência acentuada, uns atrás dos outros, na mesma rampa. Entre eles um Mercedes antigo e igualmente uma bomba da mesma marca, mas moderna. Vejo muitas matrículas portuguesas, mas também francesas e inglesas. Os primeiros a sair têm direito a pequenas garrafas de vinho Madeira. No final da operação, muitos carros, que admito não acompanharam qualquer passageiro, são carregados em grandes camiões que os levam.

Já não está quase ninguém a ver o navio que tem partida marcada para Las Palmas, de Grã Canária, às 18 horas.

Até o fim da temporada de verão, as chegadas do Volcan de Tijarafe ao Porto do Funchal vão repetir-se mais 22 vezes, 11 vezes de Santa Cruz de Tenerife e 11 vezes de Portimão. As diferenças vão residir nas horas das viagens de Canárias, cujas chegadas acontecem às segundas-feiras, pelas 08h15, e nas vindas de Portimão, que serão às 12h30 das quartas-feiras, ou mais cedo, se voltar a encontrar o mar a descer...

Paulo Camacho
paulosilvacamacho@gmail.com

in JM 09.07.2018